terça-feira, 28 de abril de 2015

DOIS SERVOS, NENHUM SENHOR!

DOIS SERVOS, NENHUM SENHOR!


Havia nas extremidades da Terra dois servos fieis. Um servia a Deus e outro servia ao Diabo.
Ambos serviam com desvelo e sofreguidão, e espalhavam migalhas dos seus conhecimentos aos famintos criando viciados em paliativos. Enquanto uns rastejavam feito vermes buscando as profundezas e os abismos da Terra, os outros também em vão tentavam com falsos tentáculos erguer-se no vazio para o alto. E a tudo deixavam, e a todos abandonavam em sincera veneração cada qual o seu soberano deus. E davam-lhe diversas faces e vestiam-nos com túnicas e capas, com cabeças de animais e de homens, e forjavam símbolos que sacramentavam cada qual mais tenebroso que o outro, mas que aos olhos cansados e aflitos pareciam belos e atraentes. E odiavam-se entre si, e se separavam e abandonavam-se uns aos outros. Os dois servos tornaram-se inimigos e cada qual queria ganhar mais servos para seus senhores. Num dia que não se sabia se era dia, o tempo cessou completamente, e de longe das estepes infindáveis, onde existem vastidões e assombros algo cresceu disforme e imenso, permeado por energia tamanha que fazia estremecer o sol e os cometas enlouquecerem avançou com grande estrondo, atravessou a atmosfera e envolveu a Terra, os homens e os bichos. Os homens aturdidos cegos pela luz magnífica, atraídos pela força poderosa que rodeava a Terra caíram com o rosto no chão e viram então agora cegos, que Deus e o Diabo eram um só!Os dois servos ergueram as mãos sem saber ao certo em qual direção, rodeavam com as mãos elevadas e glorificavam:
Satã meu pai! Vieste tu das profundezas do abismo
Deus meu pai viestes tu das imensidões celestes
Então uma voz rugindo fez-se ouvir e compreendida foi em todos os idiomas:
_Não tenho nome!Não tenho forma!Não tenho sexo!Não sou do fundo, nem da superfície, não estou nos abismos, nem nas alturas. Não necessito do amor humano, não necessito da servidão humana. Aquele está pleno não necessita de servos, o próprio amor não carece ser amado. Se nunca mais me olhassem, nem me buscassem se antes olhassem uns aos outros e uns aos outros se buscassem, se antes servissem uns aos outros e uns aos outros glorificassem, a mim me encontrariam, a mim me reconheceriam. Todos seus rituais e seitas e cânticos, todas suas guerras e pregações, suas misérias e suas mentiras, fugiram de si mesmos, fugiram uns dos outros, odiaram uns aos outros, desprezaram uns aos outros, e imaginam que podem encontrar a mim? Nunca estive perdido, nunca serei encontrado, não deveriam nunca me haver buscado, em nenhum lugar estou contido, nada me pode conter! Nunca tive inicio e nunca terei fim. Só existe um caminho que aproxima o homem de mim, nunca esteve distante, sem pedras, portões ou abrolhos. Estou onde sempre estive, vivo dentro dos seus olhos. No cão que chutas, no teu irmão que oprimes, no teu igual que desprezas, de nada me valem suas rezas, porventura a luz necessitaria velas? Ou a escuridão temeria acaso as trevas? Não me rotulem, não me emprestem suas faces se nem aos seus iguais conhecem, nem se importam o quanto se parecem. Olhos de não ver presos no que não são!Filhos da luz, servos da escuridão!Nenhum de voz me conhece, porque nenhum de voz se reconhece!



Cláudia Morett



5 comentários:

Postar um comentário