quarta-feira, 20 de maio de 2015

A PRIMEIRA VEZ DE "JESUS"

A PRIMEIRA VEZ "JESUS" 

Este texto é grande, mas é tão bonito que tive que compartilhar com pessoas especiais.
Eu vou chamar de "A primeira vez de Jesus". É um trecho de um livro que vocês já devem ter ouvido falar ou talvez já leram. Se não leram, recomendo a leitura. Saramago é Saramago!
José Saramago. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Companhia das Letras, 2005, São Paulo. pp. 233-235.
"[...] Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse,
Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim
temos de começar todos, homens que não conheciam
mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o
que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu
ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez,
Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu
nunca acabarei de ensinar-te. Maria levantou-se, foi
trancar a porta do pátio, mas primeiro dependurou qualquer
coisa do lado de fora, sinal que seria de entendimento,
para os clientes que viessem por ela, de que se
havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar,
Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio-dia,
sopra no meu jardim para que se espalhem os seus
aromas, entre o meu amado no seu jardim e coma dos
seus deliciosos frutos. Depois, juntos, Jesus amparado,
como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de
Magdala que o curou e o vai receber na sua cama, entraram
em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco
e limpo. A cama não é aquela rústica esteira estendida
no chão, com um lençol pardo lançado por cima, que Jesus
viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta
é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse,
Adornei a minha cama com cobertas, com colchas
bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com
mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu
Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de
tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o
despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e
aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve
no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes
roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da
mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele,
Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e
levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez
correr um pano numa corda, novos rumores de águas se
ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se
perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava
também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou
que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela
descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao
lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao
mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas
para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando,
Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado,
tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade
queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As
curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é
uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu
ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus
dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela,
mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando
Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos,
puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o
seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros,
os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo,
o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os
dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto
fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro,
Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas
próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las
soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma
daquelas
partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra
ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu
corpo.. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um
momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as
mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita
sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na
direcção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto
central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais
do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão
ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento.
Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e
quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a
vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o
meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe
uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o
seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e
magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te
preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então
sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no
corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo,
que um estremecimento o sacudia por dentro, como
um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando,
impossível, não pode ser, os peixes não gritam,
ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que
Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o
dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso
beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo
e interminável frémito.
Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de
Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala
serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a
conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir
que o aliviasse das dores e curasse das chagas que, mas
isso não o sabia ela, tinham nascido doutro encontro, no
deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje
pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o,
Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala,
com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que
parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de
água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei,
mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu,
O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. [...]"


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