domingo, 8 de novembro de 2015

MEDICINA PSICO-ESPIRITUAL


MEDICINA PSICO-ESPIRITUAL

Capítulo V DISTÚRBIOS PSÍQUICOS QUE PRECEDEM O DESPERTAR (Segunda Parte) 


As neuroses e os distúrbios psíquicos que se apresentam no período que precede o despertar do Si oferecem sintomas e manifestações aparentemente semelhantes aos das neuroses comuns. De fato, pode haver, a nível psíquico, angústia, depressão, ansiedade, fobia, medos etc, ou então, a nível físico, vários distúrbios neurovegetativos, que fazem pensar numa neurose provocada pela repressão de um instinto ou por um conflito inconsciente... E, na realidade, como mencionamos no capítulo precedente, mesmo nas neuroses de fundo espiritual, a causa é um conflito ou uma repressão, só que o conflito não é entre dois aspectos da personalidade, mas entre o eu pessoal e o Si, e a repressão não atinge um instinto ou uma exigência humana, mas a mais alta exigência que anima o homem: manifestar a sua verdadeira natureza, a sua essência espiritual Superconsciente, o seu aspecto divino, aquele que Victor Frankl chama de "nous", Jung de "Selbst" e as doutrinas esotéricas de Si, o Eu Superior, a Alma etc.

As neuroses espirituais, porém, apresentam também outros sintomas de caráter, por assim dizer, moral e existencial. O indivíduo que apresenta estes sintomas sente-se como tendo chegado a um ponto de estrangulamento; nada mais lhe interessa, nada mais o satisfaz. A vida lhe parece vazia e sem significado, e tudo em que antes ele acreditava parece agora fútil e sem sentido. Ele se sente imerso como em uma neblina, em uma profunda escuridão sem esperança, em um silencioso desespero. Com freqüência, acrescenta-se a estes sofrimentos também uma crise moral, a ponto de instalar-se nele um profundo sentimento de culpa, um sentimento de inadequação e quase de indignidade, os quais, como veremos, têm uma motivação.

Todos estes sintomas revelam uma profunda crise existencial, que não pode ser resolvida pela psicoterapia comum, mas requer, como o próprio Jung afirma, um amadurecimento, o reencontro de uma nova vida, em outras palavras, uma espécie de iluminação, para que sejam vencidos.

É exatamente a inconsciência que gera o sofrimento, pois ela suscita uma resistência, até mesmo uma rebelião, por parte do eu consciente frente à pressão do Si, prestes a se manifestar.

Todavia, apesar deste estado de inconsciência que, se pode dizer, permanece à superfície, o neurótico, no íntimo de sua consciência, tem como que o pressentimento do que se passa em seu interior e percebe vagamente que é chamado para um outro destino, para algo mais elevado. E é a partir desse pressentimento que nasce o sentimento de culpa e de indignidade, pois ele se culpa a si mesmo e ao seu Si, a quem, sem querer, ele acaba por trair.

É exatamente neste período, chamado por nós "do aspirante espiritual", que a tensão entre os dois pólos da natureza humana se torna mais intensa e dramática, pois as duas vontades, a inferior, do eu pessoal, e a superior, do Si, se equilibram. A crise nasce justamente desta tensão, que parece sem saída mas que, no entanto, pode ser resolvida, não, estranhamente, em virtude de algum esforço, não pela razão ou pela vontade, já que estas nunca são mais do que expressões do eu pessoal, mas pelo abandono, pela rendição incondicional, pela desistência a toda luta e toda intervenção da consciência.

"É preciso que deixemos a alma se encarregar de tudo", afirma Jung, captando com intuição luminosa esta verdade da potência inata à inércia aparente, à rendição incondicional, ao abandono da "Providência divina", que gera o processo saneador e libertador.

Todavia, é oportuno, antes de prosseguirmos com este discurso sobre as atitudes mais adequadas para resolver o conflito, que procuremos distinguir as neuroses comuns das "noógenas" ou espirituais, já que ambas apresentam os mesmos sintomas.

É preciso, antes de mais nada, levar em consideração que todas as neuroses, mesmo as que chamamos comuns e sem nenhum caráter espiritual, são na realidade crises de amadurecimento, pois, mesmo sendo a manifestação de um estado anormal, de uma condição patológica a nível psíquico, escondem todavia uma tentativa de solução do problema, uma pseudo-solução talvez, mas que demonstra o esforço de superação produzido pelas próprias energias inconscientes.

Na realidade, o neurótico, como afirmam os próprios psicanalistas ortodoxos, é um indivíduo que sofre, que luta para superar um bloqueio inconsciente, uma imaturidade, uma inadequação, mas que acaba por se chocar com as resistências causadas pela repressão. É, portanto, uma pessoa ''em evolução". Eu mesma ouvi dizer, da boca de um psicanalista, referindo-se aos que têm problemas psicológicos, imaturidades, e não lutam para superá-los: "Não sabe nem mesmo chegar a um estado de neurose!" De fato, a neurose é considerada o sintoma de uma luta, de um esforço de superação, ainda que mal-encaminhado.

Portanto, mesmo quando se apresenta a nível pessoal e humano, a neurose é sempre uma crise de amadurecimento que tende à superação de um determinado estágio, de uma determinada cristalização, a qual é no entanto impedida e obstada por um bloqueio inconsciente.

Assim mesmo, as neuroses que se originam da frustração de exigências espirituais têm caráter positivo e evolutivo.

Dito isso, observemos que, a fim de reconhecer se os nossos eventuais distúrbios psíquicos, as nossas crises, são comuns ou então espirituais, não há outra maneira senão analisarmo-nos com objetividade, com sinceridade e neutralidade, para entender qual a exigência profunda que se oculta sob os nossos sofrimentos e que, sem querer, reprimimos, e descobrir qual é a motivação real da nossa crise ou doença psíquica. Entender a si próprio não é fácil, mas é o único caminho para se chegar a uma visão realista do problema.

De qualquer maneira, há um critério geral que pode nos ajudar nesta análise e que encara o indivíduo neurótico segundo uma visão espiritualista da vida. Este critério geral é o de compreender a razão pela qual alguns indivíduos colocados em face dos mesmos problemas e das mesmas situações traumatizantes adoecem de neuroses e outros não.

A psicanálise não sabe responder com precisão a essa indagação, sendo que os vários estudiosos não estão de acordo quanto às causas que determinam uma certa predisposição para a neurose, como já mencionamos no capítulo precedente.

As doutrinas esotéricas, ao contrário, vêem na predisposição para a neurose a expressão de uma determinada situação interior do indivíduo, a qual pode derivar do seu tipo psicológico ou raio, ou mesmo do Carma. Não é por acaso que nascemos numa determinada família, que passamos por certas experiências, que somos impedidos ou frustrados pelo ambiente em que vivemos. Todos nós devemos aprender uma determinada lição, vencer determinados obstáculos e superar problemas, nós e impurezas que talvez carregamos de existências passadas.

Todavia, não é tanto a situação exterior que provoca a neurose, mas a reação individual a ela. De fato, nem todos os indivíduos, nas mesmas condições ambientais, se tornam neuróticos. O problema é então subjetivo, e se acha oculto no mais fundo de nós.

Jung afirma que todos os homens são neuróticos e que alguns conseguem encontrar dentro de si forças para "conviver com a neurose" e não se deixar submeter por ela, e outros, ao contrário, são arrastados e subjugados por ela. É, portanto, uma questão de maior ou menor desenvolvimento do "centro de consciência", que proporciona a força e o equilíbrio necessários para superar o conflito e utilizar o sofrimento de maneira evolutiva.

De certa forma, isso é justo, pois podemos dizer que toda a humanidade padece de frustrações e é obrigada a se reprimir sem poder manifestar as suas exigências vitais e profundas. Muito poucos são os que conseguem uma exteriorização plena de si próprios, que levam uma vida harmoniosa e evoluem e crescem sem obstáculos externos ou internos.

Tornam-se neuróticos, então, aqueles que têm uma determinada constituição físico-psíquica, que têm um determinado temperamento e um determinado problema em seu interior: o da "não aceitação" da realidade, o da oposição à força evolutiva e do apego a um nível de vida inferior à sua efetiva maturidade inconsciente.

Os neuróticos, de certa forma, são rebeldes, obstinados, "falsos" cegos que cerram os olhos para não enxergar a própria realidade, tapam os ouvidos para não ouvir a silenciosa voz de seu Si.

O neurótico é o símbolo do homem, ponte estendida entre os reinos animal e espiritual, e que pretenderia viver ao mesmo tempo em ambos. De fato, ele é, como dissemos no capítulo anterior, um indivíduo "incapaz de tomar uma decisão", que deseja o contraditório, sendo talvez por isso que as pessoas do quarto raio são as mais inclinadas à neurose, pois procedem em seu amadurecimento interior por sucessivas e gradativas integrações de polaridade, precedidas sempre por um conflito ou por uma crise.

De certa forma, esta é a maneira por que evolui toda a humanidade, pois, como diz Caruso, "é próprio do homem encarnar-se no Espírito e espiritualizar-se na carne". Isso, por si só, configura uma situação aparentemente contraditória, que traz como conseqüência luta e sofrimento interiores e um estado de permanente tensão entre duas tendências opostas. Podemos, portanto, afirmar (sempre citando Caruso) que "na neurose se reflete de mil maneiras o destino trágico da existência, que sofre da sua própria limitação e procura ultrapassar a situação paradoxal da participação simultânea no ser e no não-ser". [Psicanálise e Síntese da existência, de Caruso.]

Com base no que dissemos, resulta que a neurose, por mais negativa e possa parecer, na realidade oculta também um aspecto positivo. De fato, ela é o índice de uma fraqueza e de uma falha, mas ao mesmo tempo constitui uma tentativa de fusão dos opostos numa síntese superior. 



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